terça-feira, 14 de abril de 2020

Uma Interpretação de Romanos 9 na Cosmovisão Soteriológica Arminiana (Part 1)



Preâmbulo do Capítulo de Romanos 9

Antes de apresentarmos uma interpretação Arminiana de Romanos 9[1], precisamos entender dois pontos que são crucias para que possamos interpretar tal Capítulo

Em primeiro lugar, como salienta Armínio: “O escopo principal do Capitulo é o mesmo de toda a Epístola: Que o evangelho, não a lei, é o poder de Deus para a salvação, não para aquele que pratica uma boa obra, mas para aquele que crê, uma vez que no evangelho a Justiça de Deus é manifesta na obtenção da salvação pela fé em cristo"[2].

Em segundo Lugar: Paulo ao longo do respectivo capítulo irá refutar uma objeção que determinados Judeus, contrários a sua doutrina, haviam realizado, demostrando que tal objeção possuía uma dupla falha; "o princípio inquestionável que os judeus utilizaram como suporte à sua objeção, não só não era prejudicial à sua causa, mas era até mesmo bastante favorável a ela"[3].

A Objeção dos Judeus

Armínio em sua carta destinada a Gellius Snecanus comentando sobre o capítulo 9 de romanos, discursa sobre essa objeção levantada pelos Judeus: “Se a maioria dos judeus é rejeitada, a palavra de Deus tem que falhar; – Mas não é possível que a palavra de Deus falhe; – Portanto, a maioria dos judeus não foi rejeitada” [4]. Comentando sobre o que fez levar alguns Judeus elaborar essa objeção, Armínio Escreve: “O Apostolo Paulo havia proposto uma doutrina que, necessariamente, incluía a rejeição dos judeus numa medida muito considerável, a saber, a justiça e a salvação devem ser obtidas pela fé em Cristo, não pelas obras da lei. Foi fácil para os judeus deduzirem disso: “Se a justiça e a salvação consistem na fé em Cristo, a quem Paulo prega, segue-se que os judeus, em sua maior parte, são rejeitados da aliança”[5].

Interpretação Arminiana de Romanos 9
Digo a verdade não minto, testemunhando comigo no Espirito Santo, a minha própria consciência: Tenho grande tristeza e incessante dor no coração, porque eu mesmo desejaria ser anátema, separado de cristo por amor de meus irmãos, meus compatriotas, segundo a carne (V: 1-3)
Os versículos iniciais de Romanos 9 são necessários para que possamos entender todo o respectivo capítulo, “dissociar o teor dos primeiros versículos de Romanos 9 do restante do capítulo pode trazer sérios prejuízos ao intérprete” (Daniel Gouvêa. Pag, 51)[6]. Paulo se utiliza de dois termos para expressar e deixar evidenciando ao leitor o seu sentimento que permearia todo o seu posterior discurso-argumentativo: grande tristeza (gr: tristeza, angústia como estado da mente) e incessante dor (gr: dor, sofrimento que implica em angústia e opressão do coração). A necessidade de Paulo em deixar nítido seus sentimentos, antecedendo o seu discurso-argumentativo, mostra que o mesmo desejava evitar que o seu leitor conjecturasse uma satisfação e alegria de Paulo na defesa do argumento "que Deus estava rejeitando o seu povo"; Paulo estava deixando bem claro a sua profunda tristeza nesse fato 'a rejeição de "Israel" por Deus'. Essa profunda tristeza também é expressa no versículo 3, como Calvino escreve: “Paulo, não hesitou o desejar para si mesmo a condenação que viu recair eminentemente sobre os judeus, a fim de libertá-los”. O desejo de Paulo de ser anátema era completamente verdadeiro, pois no versículo 1 ele inicia o seu discurso ressaltando que o testemunho da sua consciência diante da situação dos judeus era realmente profundo e consequentemente verdadeiro; contudo tal desejo – de ser anátema – era impossível de ser cumprido, e Paulo sabia muito bem dessa impossibilidade, tanto é que a construção gramatical realizada por Paulo apresenta essa consciência “[...] Desejaria ser, constitui [...] uma construção comum no grego e denota a expressão de um desejo real, porém impossível de cumprir”[7].
São Israelitas. Pertence-lhes a adoção e também a glória, as alianças, a legislação, o culto e as promessas; deles são os patriarcas, e também deles descende o cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo Sempre, amém! (V: 4-5)
O Apóstolo nos versículos 4-5 explica o porquê de sua profunda tristeza quanto a presente[8] rejeição de Israel. “certamente, a intensa e constante tristeza do apóstolo deve-se ao fato de que os judeus, que no presente estavam sendo rejeitados por Deus, foram no passado receptores de suas grandes bênçãos”[9]. Essas benção são elencadas por Paulo, conhecidas e afirmadas pelos Judeus, sendo elas:

São Israelitas: Paulo evidencia que em apenas ser Israelita, isso já constituía uma benção. Os filhos de Israel são o povo escolhido, aqueles que descendem dos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó. Não apenas isto, o próprio  nome Israel já designava a especial relação de Deus com tal povo

Pertence-lhes a adoção: Por todas as Sagradas escrituras notamos o relacionamento paternal de Deus com a nação de Israel

A gloria: Refere-se as inumeráveis manifestações da presença de Deus entre o povo da Aliança

As Alianças: Paulo neste momento faz alusão àquelas que Deus fez com Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e Davi “O uso do plural provavelmente se refere não à aliança feita com Moisés no Sinais ou com Abraão, mas todas as alianças feitas com os antepassados dos Israelitas no A.T"[10].

A legislação: A Lei foi entregue ao povo de Israel diretamente por Deus por intermédio de Moisés

O culto: Paulo enfatiza que os serviços nos templos e a liturgia de culto foram instruídos como uma benção para facilitar a adoração comunitária e o sistema sacrificial diante do povo de Israel

As promessas: As citações referentes as promessas realizadas por Deus ao longo da carta de romanos estão especialmente centradas naquelas feitas a Abraão, por isso, em virtude do contexto da carta e principalmente dos capítulos 9-11, faz sentido entender que as promessas aqui mencionadas sejam as promessas Abraâmicas

De quem são, ou a quem pertencem os patriarcas: A herança da nação veio através deles, e por meio deles, os hebreus se tornaram o povo especial de Deus

e também deles descende o cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo Sempre, amém!: As esperanças de nação de Israel sempre foram depositadas sobre a figura do Ungido ou Messias prometido. O uso Paulino de (Cristo) para Jesus visava afirmar seu significado como uma figura divinamente aprovada, que age como agente escatológico de Deus. A referência a cristo (Segundo a Carne) constitui uma ligação entre o Messias como sendo descendente dos patriarcas. A natureza do relacionamento entre Jesus e os Israelitas é defina, isto é, física. Não obstante isso não limita a messianidade de Jesus que é divina, e é sobre todos, Deus bendito para todo Sempre, amém!; conforme salienta Daniel Gouvêa:
“Essa expressão demonstra o senhorio Cósmico de Deus sobre a criação. Ele é o senhor sobre o universo e sobre a história, e sobre todos os seres bons e maus que habitam a criação. Paulo queria estabelecer de uma vez que aquele em que os judeus não estavam crendo era simplesmente o próprio Deus. Dessa forma, pode-se compreender o tom de profundo amor, solenidade e tristeza de Paulo, pois os Israelitas que naquele momento negavam a justificação pela fé em Jesus Cristo, estavam inevitavelmente sendo rejeitados pelo senhor[...] todavia, Paulo vai demonstrar que, diante de tal situação de incredulidade, Deus é perfeitamente Justo em Rejeitar os Judeus"[11].






Notas
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[1] Irei realizar uma série de Postagens discorrendo sobre Tema. Pretendi assim fazer para evitar que o texto se tornasse longo e cansativo para o leitor.
[2] Vailatti, Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma Análise de Romanos 9; pag,14.
[3] Ibid. pag,17-18.
[4] Ibid. pag,16.
[5] Ibid. pag,17.
[6] Gouvêa, Daniel; A Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e Teológica de Romanos 9; 128 pág.
[7] Ibid. pag, 54.
[8] C. Marvin Pate em seu comentário sobre o livro de romanos faz um paralelo entre o passado e o presente concernente a relação entre Deus–Israel e Deus–Gentios, afirmando que Paulo pretendia deixar bem claro que no passado Deus demonstrou sua misericórdia para com os filhos de Israel e ira para com os filhos dos gentios; no entanto, no presente, Deus estava demonstrando misericórdia para com os filhos dos gentios e ira para com os filhos de israel.
[9] Gouvêa, Daniel; A Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e Teológica de Romanos 9; pag, 55.
[10] Ibid. pag, 58.
[11] Ibid. pag, 62-63.


quinta-feira, 9 de janeiro de 2020

Apocalipse; Literatura, Origem e Características



Conteúdo Literário

O Livro de Apocalipse encerra o cânon e a história do Novo Testamento. Apocalipse é o único livro do Novo Testamento dedicado inteiramente à profecia. A literatura apocalíptica era geralmente produzida em épocas de perseguição e opressão para encoraja aqueles que sofriam por causa de sua fé. Era caracterizada, minimamente:

Por intenso desespero com respeito as circunstâncias contemporâneas e por uma esperança igualmente intensa na intervenção divina no futuro

Pelo emprego de linguagem simbólica, de sonhos e visões

Pela introdução de potestades celestes e demoníacas, como mensageiros e agentes no progresso do propósito de Deus

Pela predição de um castigo catastrófico dos ímpios e de um livramento sobrenatural para os justos

O Livro de apocalipse ostenta tais características, não obstante, é um livro singular em comparação a outras obras que possuem um conteúdo semelhante, por exemplo, o autor revela o seu nome e parte do princípio de que é conhecido, não como uma celebridade do passado, mas como um participante contemporâneo dos assuntos relativos àqueles a quem se dirigia – tal exclusividade 'como muitas outras' o diferencia das literaturas com conteúdo apocalíptico antecedentes e precedentes, por exemplo: 2 Esdras ou o livro de Enoque)[1].

Destinatário, Datação e Autor

Tal livro fora destinado às setes igrejas da província da Ásia que já existiam havia bastante tempo e nas quais se verificara crescimento espiritual seguido de declínio. Quanto ao tempo na qual fora escrito o livro de apocalipse, a teoria mais aceita situa-o em finais do século I, no reinado de Domiciano (81-96 d.C.)[1]. Sendo o autor, como ele próprio diz, chamava-se João e fora testemunha ocular das coisas que vira (Ap 1.1, 2). Encontrava-se em Patmos, uma ilha rochosa ao largo da costa da Grécia, onde fora encarcerado por causa de sua fé. O Grego do Livro de Apocalipse é extremamente rudimentar, alguns Estudiosos do N.T afirmam que devido a essa característica, este é o único livro que fora escrito por João sem Auxílio algum de um "Escriba". Esse fato por si só causa inúmeros problemas para os interpretes do Livro de Apocalipse. Um outro fator que também poderíamos elencar que gera dificuldades para os interpretes é as alusões constantes ao A.T, cerca de 400 são realizadas por João.

A Interpretação de Apocalipse

Dentre as várias escolas de Interpretação que labutam em compreender o Livro de Apocalipse, destaco a Futurista, pois tal escola afirma que os primeiros três capítulos de Apocalipse se aplicam ao tempo em que o livro foi escrito – alguns adeptos da escola futurista entendem que existe também uma segunda referência nestes 3 capítulos inicias “Sete épocas na história da Igreja, lançando uma ponte sobre o hiato existente entre a era apostólica e o regresso de Cristo” – e a partir do capítulo 4,  o resto do livro discutirá acontecimentos que terão lugar em período chamado  de  ‘A grande Tribulação’ - salvo algumas exceções. Os acontecimentos de Apocalipse relegados para esse período são interpretados tão literalmente quanto possível, sendo, portanto, considerados como inteiramente futuros no que diz respeito à era presente. Além da discussão que envolve o momento que se dará o arrebatamento da Igreja, "se antes, durante ou após a grande tribulação"[2], Um outro ponto que fazem as escolas de interpretação divergirem é o capítulo 20 do livro de Apocalipse, "os mil anos devem ser considerados como literais ou simbólicos, e se precedem ou se seguem à vinda de Cristo"; Destaco assim, a interpretação da Escola Futurista, pois é afirmado a literalidade dos Mil anos, que dar-se-á após o Retorno pessoal de Cristo.

Apocalipse em Esboço

O livro de Apocalipse Possui o seguinte Esboço:



Prólogo: A Comunicação de Cristo (1.1-8)

Visão I: Cristo na Igreja: O Senhor Vivo (1.9–3.22)

Visão II: Cristo no Cosmos: O Redentor (4.1–5.14)

Visão III: Cristo em Conquista: O Guerreiro (17.1–18.24)

Visão IV: Cristo na Consumação: O Cordeiro (21.9-21)

Epílogo: O Chamado de Cristo (22.6-21)



Notas
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[1] Após a morte de Tito – um dos imperadores mais populares que houve em Roma –, Domiciano, seu irmão mais novo, foi levantado imperador de Roma, título concedido pelo senador pelo fato de Tito ter morrido sem deixar filhos. Domiciano reconstruiu os templos dos velhos deuses e suprimiu as religiões estrangeiras, especialmente as que procuravam conquistar adeptos. Exigiu que lhe prestassem adoração e insistiu em ser aclamado como Dominus Et Deus “Senhor e Deus”. Segundo a tradição executou o seu sobrinho, Flávio Clemente, por se recusar a oferecer sacrifícios diante de sua imagem, como também vários Cristãos e Judeus que recusaram-se a adorá-lo.

[2] No Link a seguir, com base em II Tessalonicenses 2:3, argumento que a igreja não passará pela Grande Tribulação, fazendo uma analise exegética da palavra traduzida por "apostasia" em tal perícope
https://lucasamaciel.blogspot.com/2017/12/teologia-do-novo-testamento-ii.html 




Dedicatória

Dedico a Brenda Cristine (Espero muitíssimo que lhe seja útil este "artigo")

sábado, 12 de outubro de 2019

Apologética Teísta: Argumento Cosmológico de Leibniz Para a Existência de Deus (Part 2)




Dois enunciados são logicamente equivalentes se for impossível que um deles seja verdadeiro e outro falso, ou sejam: Se P, então Q. Segundo Leibniz: "Se o Universo tem uma explicação para existir, então o ateísmo não é verdadeiro", isso equivale a dizer que "Se o ateísmo é verdadeiro, o universo não tem uma explicação para existir". Portanto, analisemos a segunda premissa do argumento de Leibniz para a existência de Deus[1].

Se o universo tem uma explicação para existir essa explicação é Deus

Essa premissa de Leibniz, para um leigo, pode ser interpretada como uma afirmação que não possui quaisquer reflexão intelectual - até mesmo em muitos círculos, onde estão infestados de "acadêmicos", a declaração dessa premissa poderá ser respondida com Sarcasmos e Ironias - entretanto, Leibniz chega a essa conclusão devido justamente a um reflexão intelectual seria e honesta no que diz respeito a relação que há entre a existência de Deus e a existência do universo. 

A Causa do Universo: Um Objeto Abstrato ou Uma Mente Sem Corpo Físico?

Segundo Leibniz, toda a realidade que compõe o Universo, como por exemplo: Tempo-Espaço, toda a matéria e energia, demanda uma causa que seja não-Física, Imaterial, e que esteja além do tempo e do Espaço. Existe somente duas coisas que se encaixam nessa descrição: um Objeto abstrato[2], como um número, ou uma mente sem corpo físico. Contudo, objetos abstratos não podem ser causa de absolutamente nada - Isso está intrínseco ao próprio ser dos objetos abstratos, ou seja, isso faz parte do que significa ser abstrato. Logo, a causa da existência do universo, conforme Leibniz conclui, deve ser uma mente transcendente, e é isso que os cristãos entendem por Deus. Conforme salienta Willian L. Craig:

"Se bem-sucedido, este argumento prova a existência de um Criador pessoal do universo, um Criador necessário, não causado, acima do tempo e do espaço e imaterial. Não estou me referindo a alguma entidade mal concebida, como um ser extraterrestre, mas um ser ultramundano[3] e que possui as muitas propriedades tradicionais de Deus. Isso é verdadeiramente fascinante!"

 A Causa do Universo: "O Universo Existe necessariamente"

Por mais Incrível que possa parecer, essa afirmação poderá ser feita por alguns Ateus ou Agnósticos, não obstante, tal alternativa é uma "ilusória" resposta para o Argumento Cosmológico de Leibniz[4]. Não apenas isso, o fato pela qual ateístas de grande rigor acadêmico não parecem ansiosos para abraçar essa alternativa é devido ao fato de que nenhuma das coisas que compõe o universo parece existir necessariamente. Todas essas coisas poderiam deixar de existir - em algum momento do passado nenhuma delas existia - e levando em consideração  o modelo padrão da física subatômica e as suas implicações, a contingência do Universo - refiro-me ao que conhecemos e entendemos do Universo -  implica na mesma afirmação: o Universo não existe necessariamente. Willian L. Craig afirma:

"Minha tese de que o universo não existe necessariamente fica ainda mais óbvia quando pensamos que parece ser inteiramente possível que os elementos fundamentais que constituem a natureza poderiam ter sido substâncias inteiramente diferentes as partículas subatômicas que hoje temos. Tal universo se caracterizaria por leis da natureza diferentes. Ainda que tomemos nossas leis da natureza como algo logicamente necessário, ainda assim é possível que existissem diferentes leis por causa das substancias dotadas de propriedades e capacidades diferentes das nossas partículas subatômicas poderiam ter existido. Nesse caso estaríamos claramente lidando com outro tipo inteiramente diferente de universo. Portanto, os defensores do ateísmo não foram tão ousados a ponto de negar a segunda premissa e dizer que o universo existe necessariamente."

Conclusão 

Não há outra alternativa, a não ser, juntamente com Leibniz, afirmarmos: "Deus é a explicação da Existência do Universo." Não obstante, o argumento salienta de forma explícita verdades Teológicas contidas nas Sagradas Escrituras concernente ao Ser de Deus:

1: Deus não é causado: Gênesis 1.1 
2: Uma mente não encarnada em um corpo: João 4.24
3: Transcende o Universo Físico: Colossenses 1.17
4: Transcende o Tempo: 2 Pedro 3.8
5: Transcende o Espaço: 2 Crônicas 6.18
6: Existe necessariamente: Êxodo 3.14


"Porque dele e por ele, e para ele, são todas as coisas; glória, pois, a ele eternamente. Amém." (Rm 11.36)





Notas
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[1] Recomento a leitura da publicação anterior sobre o argumento cosmológico de Leibniz para um melhor entendimento e compreensão da leitura que será feita a seguir: 
[2] Na filosofia objetos abstratos são aquele que são causalmente estéreis ou impotentes, enquanto que objeto concretos são capazes de causar efeitos no mundo.
[3] A palavra "Ultramundano" empregada por Craig denota algo que é além do domínio do Universo.
[4] Tomas de Aquino chegou a desenvolver uma apologética para a Existência de Deus levando em consideração a existência necessária do Universo.



Dedicatória:

Dedico essa publicação a Tiago Cipriano: "Nossas conversas Teológicas são compostas por grandes batalhas, possuindo como fim último, o aprendizado - Irônico, não?".

domingo, 30 de junho de 2019

No Céu nos lembraremos do que vivemos aqui na terra?


Segundo Lucas Banzoli, Mestre em teologia pela FTBP, "a tese de que haverá uma 'amnésia celestial' ao chegarmos à presença de Deus tem crescido nos últimos anos por diferentes e estranhas razões. Segundo os proponentes dessa teoria, na eternidade nós não teremos lembrança nenhuma de qualquer evento que se passou na terra – ou seja, uma verdadeira amnésia celestial.[1] Entretanto, quando observamos algumas passagens bíblicas, tal teoria pode ser considerada como anti-bíblica, pois várias passagens das Escrituras vão de encontro, ao que ironicamente Lucas Banzoli denomina como "amnésia celestial". Logo, através das Sagradas Escrituras, entendemos que a nossa individualidade será preservada, contudo, como salienta Mario Persona:
"[...] nos lembraremos de pessoas e eventos de nossa vida aqui, mas é preciso lembrar que faremos isto com uma mente perfeita, e não mais sujeita às apreensões, medos, remorsos, tristezas etc". [2]

Passagens Bíblicas Contrárias a "Amnésia Celestial" 


2Co 4.14:  "Sabendo que o que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também por Jesus, e nos apresentará convosco"

1ª Tessalonicenses 4

13 Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança.
14 Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram.
15 Dizemos a vocês, pela palavra do Senhor, que nós, os que estivermos vivos, os que ficarmos até a vinda do Senhor, certamente não precederemos os que dormem.
16 Pois, dada a ordem, com a voz do arcanjo e o ressoar da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu, e os mortos em Cristo ressuscitarão primeiro.
17 Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre.
18 Consolem-se uns aos outros com estas palavras.

As palavras de Paulo não indica confirmar uma situação na qual os salvos  se encontrariam como meros desconhecidos, pelo contrário, seria um vívido e autêntico reencontro. Epicuro, um dos principais filósofos do mundo grego, afirmava que os que morreram, nunca mais voltariam a existência - Já que os mesmos não criam na ressurreição. Epicuro juntamente com os seus discípulos entendiam  que os que morriam, permaneceriam mortos para todo o sempre. As consequências ultimas de tal filosofia é que jamais veríamos nossos entes queridos falecidos mais uma vez, logo, não havia esperança do contrário. Por isso o Apóstolo Paulo escreve no versículo de Número 13:  "Irmãos, não queremos que vocês sejam ignorantes quanto aos que dormem, para que não se entristeçam como os outros que não têm esperança". No versículo de Numero  18, ele escreve: "Consolem-se uns aos outros com estas palavras." Logo, compreendemos que Paulo entendia que era injustificável acreditar que jamais encontraríamos os nossos entes queridos e irmãos em Cristo após a morte, pois  ele escreve no versículo 14 "Se cremos que Jesus morreu e ressurgiu, cremos também que Deus trará, mediante Jesus e juntamente com ele, aqueles que nele dormiram". portanto com segurança ele afirma no versículo 17: "Depois disso, os que estivermos vivos seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, para o encontro com o Senhor nos ares. E assim estaremos com o Senhor para sempre".
Como muito bem concluir Lucas Banzoli:
"O consolo neste caso só faz algum sentido se há um verdadeiro reencontro entre ambas as partes com toda a memória e consciência de quem eram e de quem são. Se não houvesse reconhecimento, isso não seria um consolo, pois na prática seriam apenas umas dentre outras bilhões de pessoas no Paraíso com as quais teriam pouco ou nenhum contato e sem nenhuma lembrança ou carinho especial. É como se tudo o que tivéssemos feito aqui na terra não tivesse valor algum. Haveria a emoção de estar na presença de Deus, mas não a de rever quem a gente mais amava".[3]
Em outro momento ele aponta mais outros problemas concernente a visão da "amnésia Celestial"
"a 'amnésia celestial' não é apenas uma tese antibíblica, mas também desanimadora e desconfortante. Quantos de nós já perdemos amigos ou parentes importantes e especiais, os quais esperamos ansiosamente reencontrá-los na ressurreição – expectativa essa que seria completamente vã se essa tese for verdadeira. Isso porque a mãe que perdeu um filho, ao chegar à glória, não o reconheceria, e tampouco o filho reconheceria a própria mãe. Qualquer pessoa que você perdeu aqui na terra, na prática, terá perdido para todo o sempre. Reencontrar um grande amor como sendo apenas um anônimo(a) desconhecido(a) que você não faz ideia de quem seja e com quem não tem história nenhuma estaria muito longe de ser um autêntico “reencontro”. Seria tão “emocionante” quanto encontrar uma pessoa qualquer por aí na rua, a qual você nunca viu".[4]

Mat 12.36-37: "Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens,dela darão conta no Dia do Juízo; porque, pelas tuas palavras, serás justificado e, pelas tuas palavras, serás condenado".

Lc 16.25: “Filho, lembre-se de que durante a sua vida você recebeu coisas boas, enquanto que Lázaro recebeu coisas más”

1Co 3.12-15:  "Contudo, se o que alguém edifica sobre o fundamento é ouro, prata, pedras preciosas, madeira, feno, palha, manifesta se tornará a obra de cada um; pois o Dia a demonstrará, porque está sendo revelada pelo fogo; e qual seja a obra de cada um o próprio fogo o provará. Se permanecer a obra de alguém que sobre o fundamento edificou, esse receberá galardão; se a obra de alguém se queimar, sofrerá ele dano; mas esse mesmo será salvo, todavia, como que através do fogo". 

2 Coríntios 5.10: "Porque todos devemos comparecer ante o tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que tiver feito por meio do corpo, ou bem, ou mal"

Apo 19.7-8: "Alegremo-nos, exultemos e demos-lhe a glória, porque são chegadas as bodas do Cordeiro, cuja esposa a si mesma já se ataviou, pois lhe foi dado vestir-se de linho finíssimo, resplandecente e puro. Porque o linho finíssimo são os atos de justiça dos santos"

Apo 14.13: "Então, ouvi uma voz do céu, dizendo: Escreve: Bem-aventurados os mortos que, desde agora, morrem no Senhor. Sim, diz o Espírito, para que descansem das suas fadigas, pois as suas obras os acompanham"

A forma mais justa de ser aplicado um julgamento, é quando o "réu" possui nítidas e claras lembranças das ações cometidas. Portanto, assim sendo no céu, não haverá um sentimento como se fossemos julgados pelos atos cometido por um terceiro. As passagens supracitadas dão bases para afirmarmos que os Salvos lembrarão das ações realizadas na terra, como também aqueles que serão condenados. Convém salientar que a interpretação majoritária concernente a passagem do capítulo 16 contida no evangelho de Lucas, é que ali se trata não de uma parábola, portanto, devemos interpretar tal passagem de forma literal. Segundo as passagens encontradas em Apocalipse e supracitadas, Os atos de justiça dos santos praticados na terra é simbolizado pelo linho finíssimo do vestido de noiva  nas bodas do Cordeiro. As obras dos santos os "acompanham" no céu. Conforme Mario Persona destaca muito bem: 
"No céu não seremos diferentes do fomos na terra, no sentido de nossa individualidade. É claro que estaremos todos transformados e vivendo em um corpo glorificado como o do Senhor Jesus, com sentimentos puros, livres de todo pecado, malícia e engano. Mas seremos as mesmas pessoas, no sentido de quem somos e reconheceremos as pessoas ali, não apenas as que amamos na terra, mas as que nos eram desconhecidas".[5]

 Passagens Utilizadas pelos Defensores da "Amnésia Celestial"


Isaías 65.16-17: "porque já estão esquecidas as angústias passadas, e estão escondidas dos meus olhos. Porque, eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá mais lembrança das coisas passadas, nem mais se recordarão".

Ap 21.4: "E Deus limpará de seus olhos toda a lágrima; e não haverá mais morte, nem pranto, nem clamor, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas".

Na passagem encontrada e supracitada em Isaías, gostaríamos de salientar dois pontos. Em primeiro lugar, o texto se refere ao Milênio - versículos posteriores nos darão base para tal entendimento - e em Segundo lugar, os termos utilizados que apresentam um "esquecimento" é comum nos textos proféticos - não sendo exclusividade - possuindo mais um sentido figurando do que literal, significando portanto, um "não levar em conta/consideração". Ainda em  Isaías lemos: “Sou eu, eu mesmo, aquele que apaga suas transgressões, por amor de mim, e que não se lembra mais de seus pecados”, “Não vos lembreis das coisas passadas, nem considereis as antigas”. (Isaías 43.18, Isaías 43.25); o profeta Jeremias e Miqueias também  se utiliza de tal linguagem figurativa: "Porque eu lhes perdoarei a maldade e não me lembrarei mais dos seus pecados", "atirarás todos os nossos pecados nas profundezas do mar" (Jeremias 31.34"b"; Miquéias 7.19 "b"), poderemos também encontrar esta mesma linguagem figurativa em Ezequiel (18.22; 33.16). O autor da Epístola aos Hebreus[6] se utiliza de das expressões dos profetas para afirmar: Pois Eu lhes perdoarei a malignidade e não me permitirei lembrar mais dos seus pecados”. (Hebreus 8.12). Esse mesmo sentido é repetido em outros livros e várias vezes por toda a escritura,[7] logo, o texto contido em Isaías e a sua interpretação literal, não faria jus a vários outros contextos que se utiliza dessa linguagem figurativa de "esquecimento", onde a verdadeira interpretação seria um "não levar em conta/consideração". Se afirmamos o contrário, muitas interpretações literais levadas em últimas consequências, afrontaria até mesmo a onisciência de Deus em alguma passagens citadas.
Sabendo por tanto do que fora esclarecido, o texto de Apocalipse citado anteriormente, juntar-se-ia a trechos correlatos que se utilizam de uma figura de linguagem para expressa uma não consideração ao que fora vivido na terra, em detrimento ao estado de Gozo e alegria no Céu, conforme Mario Persona frisa:
"[...] sabendo que terei memória de minha vida na terra, minha impressão do céu é que estaremos tão ocupados com Cristo e sua formosura que acabaremos relevando para um segundo plano todas as memórias a nosso respeito".
Lucas Banzoli comentando sobre a mesma passagem afirma:
"É interessante observar que quando João no Apocalipse faz alusão a esse mesmo texto de Isaías, ele não menciona nada sobre “não se lembrar” disso ou daquilo, mas diz apenas que“não haverá mais morte, nem tristeza, nem choro, nem dor, pois a antiga ordem já passou"(Ap 21:4). O que passou não foi a memória dos que morreram e ressuscitaram, mas a ordem que agora vigora, e que então não atuará mais. Nessa nova ordem, não haverá mais nada das mazelas que hoje sofremos, e a paz desfrutada será tão plena que os males da antiga ordem não serão levados mais em consideração – serão “esquecidos”, embora não no sentido amnésico".

Conclusão:


Se a tese da "amnésia celestial" estiver correta,[8] não nos lembraríamos nem mesmo das razões pelas quais Cristo se ofereceu por nós como sacrifício. Não teríamos nem mesmo uma dimensão real de tudo o que Cristo passou no caminho do Gólgota e na cruz, como também o que ele conquistou por nós através do seu Sacrifício. Ironicamente, no pacote do que não existirá na eternidade que corresponde a imperfeições resultantes da queda, está a própria amnésia.








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Notas
[6] É sabido dos estudiosos do Novo Testamento que o autor da Epístola aos Hebreus era um profundo conhecedor da Tanakh - os livros que correspondem ao nosso Velho Testamento.
[7] No livro dos Salmos, como também nos outros livros poéticos, encontraremos inúmeras outras citações que se utiliza de tal figura de linguagem
[8] As Sagradas Escrituras nos dá evidências de que aqueles que já  estão no seio de Abraão não se encontram alheios aos acontecimentos que lhe sucederam nem tão pouco aos acontecimentos que estão a se desenrolar na terra. Como Mario Persona destaca, assim também será com aqueles que serão arrebatados. Para maiores detalhes, recomendo acessarem:  https://www.respondi.com.br/2013/05/lembraremos-no-ceu-o-que-passamos-na.html




Fontes: