Nas
postagens anteriores comentamos os versículos 1-13. Nesta, estaremos comentando os versículos 14-18. Recomendamos ao querido leitor a leitura das postagens anteriores para uma melhor compreensão[1].
Que diremos, pois? A Injustiça da parte de Deus? De modo nenhum! (V.14)
Paulo
antes mesmo de lançar qualquer argumento mostrando que não havia injustiça da
parte de Deus “após estabelecer o fato de que Deus escolhe ou rejeita na base
do seu próprio chamado, e não na base de mérito ou descendência Abraâmica, como
firmemente acreditavam os judeus”[2] antecipa um afervorado Não! "De modo
nenhum! (Gr: μὴ γένοιτο)". A objeção levantada pelos Judeus se seguiria a partir, segundo Armínio, dos
exatos antecedentes:
“Deus,
na palavra da aliança e no propósito, que é de acordo com a eleição, abrangeu
somente aqueles que poderiam ser filhos da promessa, que deveriam crer em
Cristo, à exclusão dos filhos da carne e De onde segue “que aqueles dos judeus
foram rejeitados, os que em seu zelo pela justiça da lei, não creram em Cristo,
e, além disso, que aqueles dos gentios que buscavam uma participação na
justificação e salvação pela fé em Cristo, foram recebidos na aliança. [...] Assim
sendo, Se Deus odeia os filhos da carne e os exclui da aliança, mas ama os
filhos da promessa, e os conta na descendência, abrangendo-os na aliança, e
isto, de fato, de Seu mero propósito, sem consideração às obras, então segue-se
que Ele é injusto”[3].
Essa
‘aparente’ Injustiça de Deus poderia ser enfatiza pelos Judeus[4], pelo motivo que ele –
Deus – de acordo com o seu decreto conforme o beneplácito da sua vontade quis
que assim fosse sem qualquer referência ao mérito/obras humano. Entretanto, o
Apóstolo Paulo nega tal inferência de forma imediata procurando enfatizar
segundo Armínio que “não devemos de modo algum admitir o pensamento de que há
injustiça em Deus, que é justo em Si mesmo, e, realmente, é a justiça essencial,
e que não faz e nem pode fazer nada, a menos que a maioria concorde
perfeitamente com a Sua natureza”[5]. Portanto, a cerne da questão não está
estritamente correlacionado ou ligado ao tema da fidelidade de Deus para com o
povo de Israel, mas antes a fidelidade do próprio carácter e pessoa de Deus[6].
A razão da negação enfática realizada por Paulo a conclusão da objeção dos
Judeus – Há injustiça da Parte de Deus – é dupla; “primeira, a partir da
liberdade da misericórdia divina; segunda, a partir da devida demonstração do divino
poder e glória” (Vailatti, Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma Análise de Romanos 9; pag, 52).
Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia. (V: 15-16).
Ao
fazer referência a passagem que consta em Gn 33:19, Paulo se faz uso do
presente perfectivo (Pois ele Diz a Moises) com o intuito de demonstrar que
apesar do contexto temporal da referência – ocorreu no passado – ainda falava
plenamente ao ouvinte de seus dias. Segundo Armínio, “Nestas palavras está expressa,
de acordo com o idioma hebraico, esta ideia: ‘Na escolha e na liberdade da
minha vontade está localizado o poder de ter misericórdia de quem Eu quiser”:
como também é indicado pela dedução”, Portanto, Ele tem misericórdia de quem
Ele quiser ter misericórdia” (versículo 18)”[7]. Picirrili corrobora com o
entendimento de Armínio ao Escrever:
“Em outras palavras, ele – Deus – desejava deixar claramente estabelecido que nem Moisés, nem Israel, tinha alguma reivindicação especial sobre si que tirasse o soberano desejo de Deus de Agir como ele Escolhe. Nem vai Ele mostrar misericórdia para com todos eles só porque são israelitas na carne"[8].
Portando,
a eleição de Deus está ancorada na sua misericórdia, e diferentemente do que alguns Calvinistas afirmam, a mesma não está ancorada em alguma vontade oculta
não qualificada. Deus ele não é Injusto, pois ele age conforme a sua
livre-misericórdia, essa é a primeira base utilizada por Paulo e salientada por
Armínio. Paulo faz uso da
palavra ‘misericórdia’ para englobar todo o peso de sua refutação pois a mesma
pressupõe o estado de miséria e pecado do homem e a sua completa inabilidade em
guarda a lei “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de
Deus (Rm 3:24)” como também ao fato de que Deus poderia ter punido o homem de
acordo com a sua completa rebeldia e desobediência, contudo como ressalta
Armínio:
“era
necessário que a misericórdia devesse intervir, a qual deveria perdoar o pecado
e organizar uma condição que Ele pode, pelo auxílio da própria misericórdia,
ser capaz de executar. O apóstolo afirma que Deus formou dentro de Si mesmo um
propósito deste caráter, e isto de Sua mera misericórdia, que era livre (ainda que
sob a orientação da justiça) para determinar sobre quem Ele poderia querer ter
misericórdia e sobre quem Ele poderia querer não ter misericórdia; a quem Ele
poderia querer tornar participante da justificação e da vida, e a quem excluir
das mesmas bênçãos”[9].
Assim
sendo, a eleição de Deus deriva de sua misericórdia e compaixão; Não obstante,
a misericórdia de Deus é livre, porém não arbitrária. Por isso no versículo 16
lemos: “Assim, pois, não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar
Deus a sua misericórdia”. Ou seja, “Ele determinou receber os filhos da
promessa na aliança, e excluir dela os filhos da carne, e pelo qual Ele propôs
que deve permanecer “não das obras, mas por Aquele que chama” não pode ser
acusado de injustiça; porque Ele foi movido pela misericórdia apenas. Ele estabeleceu
esse decreto em Sua própria mente. Deus
poderia, portanto, ser injusto, se Ele privasse alguém da justificação e da
vida, ou se Ele exigisse uma condição contrária a aliança firmada na criação.”[10]. Armínio resume todo este argumento de
Paulo da seguinte maneira:
“Toda
esta questão poderia ser tratada silogisticamente: – Se o propósito de Deus de Acordo
com a eleição para rejeitar os filhos da carne, mas considerar como descendência,
os filhos da promessa, tem como sua causa apenas a misericórdia e a compaixão
de Deus; então, segue-se que Deus não pode, de maneira nenhuma, por esse motivo,
ser acusado de injustiça; – Mas a causa desse propósito é a misericórdia de
Deus apenas; – Portanto, Deus não pode, por conta disso, ser acusado de
injustiça”[11].
Comentando
sobre o versículo 16, Armínio escreve:
“Quando
a vontade e o curso dos homens se opõem à misericórdia de Deus, é certo que
a referência seja ao esforço e ao curso de um homem, pelos quais ele espera que
obterá justificação e salvação à parte da misericórdia de Deus. Tal, no
entanto, é o esforço e o curso daqueles que buscam a justificação e a salvação pelas
obras da lei. Quando, também, a misericórdia é, por outro lado, colocada em
oposição à vontade e curso
dos homens, é evidente que a condição da justificação e da vida, que é a que
mais se aproxima em relação à misericórdia, a saber, a fé em Cristo, o Mediador,
é ordenada, sendo a outra oposta à misericórdia”[12].
Diante
da perícope supracitada, vem em mente a seguinte pergunta: De quem Deus tem
misericórdia e compaixão? Daniel
Gouvêa de forma extremamente perspicaz responde:
"Embora
a ênfase desse versículo seja na livre misericórdia de Deus, sabe-se que nos
versos 30-33 e no capítulo 10:1-21, e por toda a carta de Romanos, bem como
diversos trechos das Escrituras, Deus dispensa sua misericórdia a todos que têm
fé em Jesus Cristo, ou seja, Deus é soberano para salvar ou condenar quem ele
deseja; e ele desejou salvar o que tinham fé em Jesus e condenar os que não
tinham (o que era o caso dos judeus a quem Paulo tinha em mente ao escrever Rm
9)"[13].
Paulo
com isso conclui a primeira base da sua refutação concernente a conclusão da
objeção dos Judeus afirmando a liberdade da misericórdia de Deus.
Porque diz a Escritura a Faraó: Para isto mesmo te levantei; para em ti mostrar o meu poder, e para que o meu nome seja anunciado em toda a terra. (V:17)
Nos
versículos comentados anteriormente (V:15-16), claramente percebemos a ênfase
positiva na misericórdia de Deus, entretanto, neste segundo exemplo, o de Faraó,
a ênfase é dada ao Juízo de Deus, sendo ela negativa. “De fato, enquanto a
misericórdia é um atributo do carácter de Deus que dispensa a todos que ele deseja,
endurecimento é um Juízo de Deus aos que resistem a sua misericórdia (V:17-18)[14]. O exemplo de Faraó utilizado por Paulo, procura demonstrar o divino poder
e glória sobre quem ele não quer ter misericórdia. Armínio procurando esclarecer os
propósitos argumentativos de Paulo ao utilizar desse exemplo comenta:
“Se
Deus é livre, pois a simples declaração de Seu próprio poder e a demonstração
de Seu próprio nome, levanta, endurece e pune ao Faraó, então injustiça não
pode ser atribuída a Deus, porque em Seu propósito de acordo com a eleição, Ele
decreta demonstrar Seu próprio poder e glória no justo endurecimento e punição
dos filhos da carne; – Mas Deus era livre para fazer o primeiro, como é
evidente desta passagem; – Portanto, Ele também é livre para fazer o último, e,
assim, Ele não pode, por esse motivo, ser acusado de injustiça”[15].
Ao
lermos Êx 9:14-16, percebemos claramente, que devido iniquidade de Faraó como
também do seu povo, Deus falou para Moisés que poderia ter estendido a mão para
ferir /castigar a ambos; ele – Deus – devido aos pecados de Faraó e do seu povo
poderia não apenas Feri-los/Castiga-los, mas também cortá-los (Hb: apagar,
destruir, eliminar) da Terra. Não obstante, Deus, através de Faraó, conforme o
seu propósito e de acordo com a eleição, decidiu em primeiro lugar, demonstrar o
seu poder e em segundo lugar, fazer conhecido o seu nome em toda a terra “[...] para
isso te hei mantido, a fim de mostrar-te o meu poder, e para que seja o meu
nome anunciado em toda a terra” (Ex 9:16); é importante salientarmos que o
poder a qual Deus procurava mostrar para
Faraó possuía uma dupla característica: poder para salvar e poder para julgar. "[...] no episódio de Êxodo, Deus, com o seu poder, salvou o seu povo e com o
mesmo poder condenou Faraó (Grant Osborne). Paulo faz referência a esse aspecto
duplo do poder de Deus com relação aos crentes e aos incrédulos nos Capítulos 1
e 2 de Romanos, Grant Osborne escreve “Também em Romanos, o poder de Deus salva
os da fé (Rm 1:16), e o mesmo poder condena os incrédulos ou resistentes” (Grant
Osborne, Commentary of Romans, p. 250). Quanto ao segundo aspecto do propósito
que Deus possuía “para que o meu nome anunciado em toda a terra”, Daniel Gouvêa
afirma:
“Em
várias ocasiões no AT, percebe-se a repercussão que o episódio do Êxodo e das
pragas tiveram no mundo de então. Isso pode ser visto, por exemplo, no capítulo
nove do livro de Josué, quando os gibionitas fazem menção aos episódios do
Egito perante Josué: “Teus servos vieram de uma terra mui distante, por causa
do nome do Senhor teu Deus; porquanto ouvimos falar da sua fama e de tudo
quanto fez no Egito” (Js 9:9)” [16].
Portanto,
Paulo procurava estabelecer aos seus leitores que se por um lado o poder
salvífico de Deus era demonstrado no presente momento aos que por meio da fé
criam em Cristo, por outro lado, o poder e consequentemente a autoridade de
Julgar e condenar os incrédulos também era evidenciado, e não apenas isso, pelo
fato dos Judeus estarem rejeitando o evangelho, isso levou a proclamação desse
mesmo evangelho através do mundo.
Logo, tem Ele misericórdia de quem quer e também endurece a quem lhe apraz (V:18)
Armínio
deixa bem claro que Deus era livre para demonstrar o seu poder e a glória do
seu nome na justa punição de toda e qualquer pessoas, como também fazer isso de
acordo com qualquer propósito, na condenação daqueles que por cuja justa condenação
ele pode querer declarar o seu próprio poder e a glória do seu nome,
entretanto, conforme Armínio frisa:
“Se
Deus pode ter misericórdia de quem Ele quer e endurecer a quem Ele quer, então
Ele também é livre para formar um propósito de acordo com a eleição, pela qual
Ele pode determinar ter misericórdia dos filhos da promessa, mas endurecer e
punir os filhos da carne; – Mas Deus pode ter misericórdia de quem Ele quer e
endurecer a quem Ele quer; – Portanto, Ele é livre para fazer um decreto, de
acordo com a eleição, pelo qual Ele pode determinar ter misericórdia sobre os
filhos da promessa, mas endurecer e punir os filhos da carne. Por consequência,
também, se Ele deve fazer isso que Ele é livre para fazer, Ele não pode, merecidamente,
em absoluto, ser acusado de injustiça” [17].
Logo,
conforme o seu propósito de acordo com a eleição, Deus tem misericórdia de quem
quer (os Crentes) e endurece a quem lhe apraz (Incrédulos). Essa afirmação é
baseada de acordo com a revelação das Escrituras: Dt 5:9-10; 7:9-10; 30:15-18;
30:20; 1 Sm 2:30; Sl 18:25; 34:18; 51:17; Pv 8:17; Is 57:15; Rm 1: 20-32; Fl 1:28; 2 Tm 2:11. Ademais, conforme Daniel Gouvêa friza: "É
importante lembrar que Deus tinha um propósito bem definido do endurecimento do
ímpio Faraó, isto é, demonstrar a singularidade de sua onipotência sobre o
Egito; fazer dos seus atos um memorial para Israel e as posteriores gerações, e
trazer glória ao seu nome. Esses propósitos são semelhantes a mensagem de
Romanos 9, pois, observando o contexto maior de Rm 9-11, percebe-se que Deus
tem misericórdia daqueles que retornam a fé, e endurece os que se recusam a
fazer isso" ( Gouvêa, Daniel; A Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e Teológica de Romanos 9; pág, 94).
Considerações
quanto ao Endurecimento de Faraó
No
protestantismo, duas correntes soteriológicas[18] são as que mais possuem
adeptos, sendo elas: Arminianismo e Calvinismo. Todo o Capítulo 9 de Romanos
fazem parte dos maiores debates entre essas cosmovisões e em especialmente a
perícope supracitada - versículo 18.
Como o nosso foco é apenas apresentar uma interpretação Arminiana de Romanos 9,
não estaremos expondo quaisquer Interpretação Calvinista de tal perícope – apesar que
creio que muitos dos leitores as conhecem – assim sendo, seguiremos com as nossas
considerações.
É
de suma importância destacarmos inicialmente que as palavras da raiz “endurecer”,
na teologia Bíblica, dizem respeito a um estado de completa obstinação
espiritual, tipifica alguém insensível a Deus, a sua palavra e sua obra, ou
seja, tudo aquilo que diz respeito a Deus e o que se relaciona com ele. Portanto,
Morris afirma que em nenhum lugar da bíblia – é possível
afirmar que Deus tenha endurecido alguém que anteriormente já não tenha
endurecido a si mesmo. Partido desse pressuposto é importante notarmos que
quanto ao endurecimento do coração de Faraó, “Cinco vezes é dito dele que ele
mesmo endureceu, ou tornou pesado seu coração (Êx 7.13; 7.22; 8.15; 8.32; 9.7),
antes da vez quando é finalmente dito que Deus o endureceu (Êx 9.12), e mesmo depois
disso é dito que ele endureceu a si mesmo (Êx 9.34). Assim ele inicialmente
fechou seu próprio coração aos apelos de Deus; ficou mais firme pela
resistência obstinada sob os julgamentos de Deus, até que finalmente Deus, como
punição por sua rejeição obstinada do direito, entregou-o à sua louca
insensatez e afastou seu julgamento”[19]. Isso significa dizer que Deus endurece o
coração não de forma inicial, direta, contra o livre-arbítrio da pessoa e
consequentemente como sua causa, mas subsequentemente, indiretamente, por meio
do próprio livre-arbítrio do homem e como seu efeito, ou seja,
conforme escreve Murray “o endurecimento de Faraó, [...], reveste-se de caráter
judicial. Pressupõe a entrega ao mal e, no caso de Faraó, particularmente à
entrega ao mal de seu auto-endurecimento”[20]. Esta entrega da parte de Deus é afirmada
por Paulo quando ele escreve: “Por isso também Deus os entregou às
concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos
entre si [...] Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as
suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza” (Rm 1:24,26). O
endurecimento realizado por Deus expressa a divina resposta diante da
persistente obstinação humana contra ele, e assim é o entendimento de Lucas
quando ele escreve tratando sobre a estadia de Paulo em Éfeso na qual ao longo
três meses “frequentou a sinagoga onde falava ousadamente dissertando e
persuadindo com respeito ao reino de Deus”: "Visto
que alguns deles se mostravam endurecidos e descrentes, falando mal do caminho
diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando
a discorrer diariamente na escola de tirano (At 19:9). Em outro momento Lucas
discorrendo sobre a estadia de Paulo em Roma e a sua disputa com alguns Judeus que
ali residia, ele afirmou:
“E alguns criam no que se dizia; outros porém continuaram incrédulos. E, havendo discordância entre eles, despediram-se, dizendo Paulo esta palavra:
Bem falou o Espírito Santo a nossos pais pelo profeta Isaías, Dizendo: Vai a
este povo, e dize: De ouvido ouvireis, e de maneira nenhuma entendereis; E,
vendo vereis, e de maneira nenhuma percebereis. Porquanto o coração deste povo
está endurecido, e com os ouvidos ouviram pesadamente, e fecharam os olhos, para
que nunca com os olhos vejam, nem com os ouvidos ouçam, nem do coração
entendam, E se convertam, E eu os cure. (At
28:25-27).
Como ressalta Douglas J. Moo, “endurecimento de Deus não faz, então,
causar insensibilidade espiritual para as coisas de Deus, mas mantém as pessoas
no estado de pecado que as caracteriza”[21], portanto, Conforme Daniel Gouvêa, a
palavra “”Edurecer” no corpus Paulinus [...] denota inflexibilidade e
insensibilidade para com o evangelho, que impedem as pessoas de serem salvas (Rm
2:5; 11:7; 2Co 3:14; Ef 4:18)”. Sabendo disso, o endurecimento de faraó foi um
ato completamente Justo da punição de Deus “Faraó não tinha um bom coração
disposto a deixar livremente que os israelitas fugissem. Deus respeitou o
livre-arbítrio do Faraó e o entregou a esta condição. Faraó já era orgulhoso,
soberbo e ímpio muito antes de Moisés e Arão começarem toda a história. Foram
as suas escolhas que o levaram a isso, e não “o conselho secreto de
Deus”. Deus não faz o homem ímpio; o próprio homem que se faz ímpio (Ec.7:29)
Deus nunca agiu contrário ao livre-arbítrio do Faraó”[22]. Assim sendo, queremos
com deixar estabelecido que Deus de fato endureceu a cerviz de Faraó, não obstante, Faraó era o único responsável pelo seu próprio endurecimento; Essa
mesma ideia percebemos ao ler Rm 1:24, pois Deus não determinou que os tais
cometessem quaisquer atos de impureza sexual, mas sim que, por tanto resistirem
à graça, esta graça se afastou deles, de modo que agora eles estão “entregues”
a este fim. Em uma conversa bastante informal com Sitri Silas, um grande mestre para mim, ele frizou: "O endurecimento de Deus é sempre reativo, e não ativo. É algo que faz com que ele não aja; assim, Deus, mais não agiria para esclarecer do que ele agiria para esclarecer" (Rm 1:18-24). Todavia, conforme Douglas J. Moo e até mesmo Piper, está condição não significa um estado irreversível – inicialmente – pois pode ser alterada pela misericórdia e graça revivificante de Deus. Concluindo os seus comentários sobre a perícope que estamos
discorrendo, Daniel Gouvêa destaca:
“[...] é possível afirmar
as seguintes questões acerca do endurecimento de Faraó em Rm 9: primeiro, o
endurecimento e o juízo mencionados aqui são de cunho soteriológico. Se não
fosse este caso, por que Paulo estava tão triste com a situação dos seus
patrícios? Segundo, Paulo esperava que nem todos os Judeus endurecidos naquele
momento permanecessem para sempre em tal estado de endurecimento (9:1-3; 10:1;
11:11-14, 28-32). Terceiro, assim como Faraó fora resistente até a morte
experimentando o justo juízo de Deus, judeus resistentes experimentariam o
mesmo. Contudo, não há injustiça da parte de Deus em agir assim (v14), pois,
mesmo judeus sendo da linhagem física de Abrão, eram igualmente pecadores,
estavam debaixo da ira de Deus (1:18, 2:1) e precisavam de justificação pela
fé. Portanto, Deus tem misericórdia de quem quer (crentes) e endurece a quem
lhe apraz (incrédulos)“[23].
Notas
____________________________________________
[2] Gouvêa, Daniel; A
Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e Teológica
de Romanos 9; pág, 85.
[3] Vailatti, Carlos
Augusto; Jacó Armínio-Uma Análise de Romanos 9; pag, 50-51.
[4] De acordo com Daniel Gouvêa, Paulo
faz uso do futuro deliberativo Τί οὖν ἐροῦμεν (Que diremos, pois) para esclarecer um potencial mal entendido
(Ibid. pág, 85).
[5] Vailatti, Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma
Análise de Romanos 9; pag, 52.
[6] Armínio ao desenvolver a sua soteriologia sempre se preocupou em preservar
o carácter de Deus acima de tudo. https://lucasamaciel.blogspot.com/2019/04/o-cerne-do-arminianismo-e-o-livre.html
[7] Ibid. pág, 53.
[8] Robert Picirilli, Romans, Pag. 183.
[9] Vailatti, Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma
Análise de Romanos 9; pag, 55.
[10] Ibid. pág, 55-56.
[11] Ibid. pág, 57.
[12] Ibid. pág, 59.
[13] Gouvêa,
Daniel; A Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e
Teológica de Romanos 9; pág, 89.
[14] Ibid.
pág, 90
[15] Vailatti,
Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma Análise de Romanos 9; pag, 60-61.
[16] Gouvêa,
Daniel; A Soberania de Deus na Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e
Teológica de Romanos 9; pág, 90-91.
[17] Vailatti,
Carlos Augusto; Jacó Armínio-Uma Análise de Romanos 9; pag, 61-62.
[18] As correntes soteriológicas na Teologia não se limita, apenas,
ao Arminianismo e Calvinismo. Podemos destacar algumas outras, como:
Pelagianismo, Agostinianismo, Semi-Pelagianismo/Semi-Agostianianismo, Tomismo e
Molinismo (Convém salientar que cada uma dessas correntes – Até mesmo o
Arminianismo e Calvinismo – possui ramificações que lidam com divergências
internas).
[19] B. W.
Johnson, The People’s New Testament.
[20] John
Murray, Romanos, 1ª edição (São José dos Campos: Editora Fiel, 2003), p.
391.
[21] Douglas
J. Moo, The Epistle to The Romans, p. 599
[23] Gouvêa, Daniel; A Soberania de Deus na
Justificação: Uma abordagem Bíblica, Exegética e Teológica de Romanos 9; pág,
95-96.

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