O Dilema
O Principal problema que pode surgir aos nos depararmos com a Epístola de Tiago, é pensarmos que o mesmo está de alguma forma contradizendo o Apóstolo Paulo ou até mesmo o corrigindo concernente a sua compreensão quanto a justificação, já que o Ele - Paulo - repetidamente afirmava que esta se dava por meio da fé e não por obras. Não obstante, Aqueles que afirmam que na compreensão de Tiago a fé é algo secundário, de menor importância, ou até mesmo subserviente as obras, não percebem que para Tiago, a vida Cristã pode ser resumida em termos de fé (Tg 1.3; 2.1,5), não apenas isso, a fé é algo sine qua non para nossa relação contínua com Deus e se manifesta em oração (Tg 1.6; 5.15). Fica evidente que para o autor, "a vida Cristã começa com um novo nascimento, tornando-se então uma vida contínua de fé".
Em Defesa de uma Fé Verdadeira
Tiago procura ressaltar ao leitor de que existe uma impossibilidade da existência de uma fé verdadeira sem obras, assim como palavras sem ações. Tiago faz uso de dois exemplo para ilustrar o seu entendimento sobre uma genuína fé; "Tiago Constrói um argumento em favor das obras que não é baseado simplesmente na lógica, mas apoiado na invocação dos exemplos Bíblicos de Abraão e Raabe (Ibid.). Ela - a fé - foi expressada em Abraão que estava disposto a oferecer seu filho a Deus (Tg 2.21) e em Raabe que protegeu os espiões e os livrou de serem presos e consequentemente mortos (Tg 2.25)[1]. Tiago ao longo de sua epístola é insistente quanto a necessidade da fé ser expressa em obras (Tg 2.1-4), consequentemente, com a mesma ênfase, Tiago enfatiza a inutilidade de uma fé sem obras (Tg 2.14-26). Portanto, deve ficar evidente ao leitor que o autor defende a ideia de que a fé verdadeira resulta em obras que a expressa. Entretanto, três temas se relacionam com o argumento de Tiago. Sendo eles:
- Em primeiro lugar, a obediência deve acompanhar, necessariamente, o ouvir a palavra (Tiago 1.22)
- Em segundo lugar, Palavras de nada servem sem ações em um contexto na qual se faz de suma importância expressar ambas (Tg 2.15-16)
- Por fim, a fé desacompanhada de obras é morta (Tg 2.14-17)
Uma Resposta Merecida
Tiago ele está se dirigindo não a Paulo, mas a seus "seguidores" e a todo aquele que possuísse uma visão incorreta quanto a fé. Marshall realça justamente isso ao escrever "Tiago está atacando uma falsa visão da fé, que a entende como pouco mais que uma crença ortodoxa que não muda o estilo de vida de uma pessoa"[2]. Se levarmos em consideração o fato de que ser cristão é ser um crente, Tiago corrige a ideia errônea de que a crença é apenas e exclusivamente "uma mera questão intelectual e que não diz respeito ao comportamento"[3]. Se por um lado o Apóstolo Paulo contestava o ensinamento de que a lei judaica, principalmente a circuncisão e todos os seus aspectos ritualísticos era imprescindível para a Justificação, do mesmo modo, Tiago confrontava aqueles que acreditavam que possuindo um fé em Deus, não havia necessidade de ser expressar o amor, curiosamente, a necessidade de tal demonstração é o mesmo entendimento de Paulo: "Pois, quando estamos unidos com Cristo Jesus, não faz diferença nenhuma estar ou não estar circuncidado. O que importa é a fé que age por meio do amor" (Gálatas 5:6 [NTLH]). Algo que se faz necessário pontuar, é que Tiago em nenhum momento prioriza as obras em detrimento a fé, algo que Paulo combateu em Romanos e em Gálatas. As "obras" em Tiago significa algo totalmente diferente, "Tiago está falando do tipo de boas obras que indica a mudança de caráter que deve acompanhar a conversão cristã"[4]. Ao passo que "obras" em Paulo se refere/significa "obras da lei", pois o que ele combatia era o entendimento de que se fazia necessário as "obras" da lei, em vez da fé ou em complemento a ela, para a justificação".
Conclusão
Não precisamos ver Tiago e Paulo como "inimigos Teológicos", como os veem a maioria dos teólogos alemães, pois, conforme defende Marshall, "é bastante provável que alguns dos ouvintes de Paulo tenham tornado isoladamente sua insistência na fé como uma desculpa para a falta de esforço em fazer boas ações"[5]. Para Tiago, esta compreensão seria uma "tipo defeituoso de fé" na qual ele de hipótese alguma poderia concordar. Portanto, Tiago e Paulo estão mais lado a lado do que se possa imaginar, defendendo o evangelho de falsos ensinamentos, deturpações e compreensões incorretas.
Notas
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[1] "embora a ilustração de Tiago 2:15-16 trate da diferença entre palavras e obras de amor como um paralelo à diferença entre fé sem obras e fé com obras, ela é sem dúvida uma ilustração altamente apropriada, uma vez que Tiago via as obras de amor como opostas às exigências rituais e como uma das expressões necessárias da verdadeira fé" (Marshall, I Howard; Teologia do Novo Testamento; Ed. Vida Nova; P. 548".
[2] Ibid.
[3] Ibid., p. 591.
[3] Ibid., p. 591.
[4] Ibid., p. 593.
[5] Ibid.

Muito bem elaborado aprovo e concordo com o que li
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