sexta-feira, 30 de abril de 2021

A Doutrina da Iminência do Arrebatamento


 Conceituação

É Importante, já de imediato, apresentar ao leitor o significado da palavra Iminência. Em primeiro lugar, a mesma não deve ser confundida com o termo "imanente", pois, dentro de uma linguagem teológica, tal termo se refere a ideia de que "Deus não está apenas transcendente, muito acima de nós, mas que está sempre conosco e ativo em nosso favor"[1]. Em segundo lugar, a mesma palavra não deve ser confundida com "eminente", pois é "reservado normalmente para reis e pessoas de distinção notável"[2]. A palavra eminente é um título de honra. 
O termo "iminência" é usado dentro de um contexto escatológico "para descrever a vinda de Jesus para a igreja, a experiência do arrebatamento e para declarar que esse evento é o próximo no programa profético de Deus"[3]. Gerald B. Stanton acentua que "o pensamento primário expresso pela palavra "iminente" é de algo importante que está prestes a acontecer e poderia acontecer em breve. Embora esse evento não precise ser imediato, nem necessariamente muito em breve, é o próximo evento e pode acontecer a qualquer momento"[4]. Observe que Stanton frisa que iminência não é sinônimo de imediatismo. Iminência é uma coisa, imediatismo é outra completamente distinta. Levando em consideração esta verdade Pentecost argumenta: "há uma distinção a ser observada entre uma volta iminente de Cristo e uma volta imediata de Cristo. Em nenhum lugar as Escrituras ensinam que sua volta seria imediata, mas ensinam com total coerência que tal volta poderia ser esperada a qualquer momento[5].
Se faz necessário realçar a diferença entre o termo impendente e iminência. O primeiro está ligado a um evento potencialmente perigoso ou negativo, "mas se um evento é carregado de esperança e alegre expectativa, nós o expressamos com a ideia de "iminência" e com o adjetivo de "iminente". Entre os crentes, essas palavras normalmente estão relacionadas à possível breve vinda de nosso Senhor Jesus Cristo para levar a igreja no acontecimento alegre e monumental chamado de arrebatamento.

O cerne da Doutrina


A doutrina da Iminência envolve três verdades. Em primeiro lugar, "embora ninguém saiba a hora da volta de Cristo, Ele pode voltar a qualquer momento e é possível que Ele volte hoje; em segundo lugar, "o arrebatamento é um evento sem sinais, não será anunciado e será inesperado para a maioria das pessoas"; por último, "mais nenhum evento claramente profetizado precisa ocorrer antes do arrebatamento, pois isso seria datar a hora da vinda de Cristo".
Quando entendemos todas essas verdades, fica nítido de que é impossível alguém crer na iminência do arrebatamento e ao mesmo tempo viver de estipulações ou marcações de datas de quando este evento irá ocorrer. Este comportamento não faz jus a um entendimento futurista concernente as profecias bíblicas, pois "de acordo com o futurismo pré-tribulacional a data do arrebatamento não é ligada, de qualquer maneira a qualquer evento terreno que possa servir como base para a datação"[6]. Portanto, o arrebatamento é um evento/acontecimento sem sinais. Devido a tal fato, Thomas Ice escreve:

 "Os que são futuristas pré-tribulacionais tem que abandonar o método futurista para especularem sobre uma data para o arrebatamento. O sistema futurista impede a datação. É por isso que futuristas que tentam marcar a data se voltam para algum tipo de historicismo que iguala a presente era à tribulação. Se, porém, o indivíduo está trabalhando debaixo da lógica da abordagem historicista, o historicismo não sustenta a doutrina do arrebatamento pré-tribulacional. Ao operar com base em princípios historicistas, o futurista solapa a base do arrebatamento pré-tribulacional que está tentando datar"[7].

Essa é uma das principais diferenças entre o Arrebatamento da Igreja e a Segunda Vinda de Cristo[8], pois, conforme frisa Rhon Rodes, "O arrebatamento é um acontecimento que não requer sinal de alerta prévio  totalmente contrário da Segunda Vinda de Cristo, a qual será precedida de muitos eventos durante os sete anos da Tribulação (Ver Ap 4-18)[9]. No seu livro "Manual de Escatologia", Pentecost argumenta: 

"Muitos sinais foram dados à nação de Israel, os quais precederiam a segunda vinda, a fim de que a nação vivesse em expectativa quando Sua volta se aproximasse. Apesar de Israel não saber o dia nem a hora em que o Senhor voltaria, saberia que sua redenção se aproximava pelo cumprimento desses sinais. Tais sinais nunca foram dados à igreja. A igreja tem a ordem de viver à luz da vinda iminente do Senhor para transladá-la à Sua presença (Jo 14.2,3; At 1.11; 1 Co 15.51,52; Fp 3.20; Cl 3.4; l Ts 1.10; l Tm 6.14; Tg 5.8; 2 Pe 3.3,4). Passagens como 1 Tessalonicenses 5.6, Tito 2.13 e Apocalipse 3.3 alertam o crente a aguardar o próprio Senhor, não aguardar sinais que antecederiam Seu retorno. É verdade que os acontecimentos da septuagésima semana lançarão um prenúncio antes do arrebatamento, mas a atenção do crente deve ser sempre dirigida para Cristo, nunca aos presságios"[10].


Os eventos Atuais


Ao leitor, muito do que fora discutido e exposto até o prezado momento quanto a doutrina da iminência do arrebatamento pode ser algo "novo". Isso se dá ao fato de que por muitos anos Mateus 24-25 – principalmente  e outras passagens foram interpretadas como tendo um conteúdo profético que necessariamente precederia o arrebatamento da Igreja, entretanto, o "sermão profético" é dirigido aos discípulos de Cristo após os mesmos fazerem três perguntas centradas na Tribulação, logo, conforme Staton, e outros inúmeros teólogos pré-tribulacionistas, "A passagem,[...] é judaica e se relaciona a um contexto muito judaico. Por essa razão, nem a igreja nem o arrebatamento são mencionados [..][11]. Contudo, como ficaria o nosso entendimento concernente ao período presente? Em primeiro lugar, um bom intérprete deve manter o futuro no futuro. Devemos ter o cuidado para jamais misturar o futuro com o presente. Não obstante, obviamente que os eventos atuais possuem uma significância futura e sem dúvidas alguma se relacionam. A grande questão é esta: "qual seria uma visão coerente a respeito deste assunto"?!
De acordo com Thomas Ice, devemos afirmar que todo o cenário está sendo preparado para o grandioso programa escatológico do nosso Deus. A bíblia apresenta inúmeros eventos, atos, e nações que estão/estarão envolvidas com a "grande tribulação", e, com base nisso, podemos perceber claramente a "preparação divina para os setes anos finais das setentas semanas de Daniel". John F. Walvoord comenta:

"Não há base Bíblica para que se marquem datas para a volta do Senhor ou o fim do mundo... À medida que os estudiosos da Bíblia observam princípios corretos de interpretação, estão ficando cada vez mais cônscios de uma notável correspondência entre a tendência obvia dos eventos mundiais e o que a Bíblia predisse há séculos" (Armageddon, oil and the Middle East Crisis).

Portanto, "no cenário mundial contemporâneo há muitas indicações que levam a conclusão de que o fim desta era pode logo vir sobre nós. [...] nunca antes na história do mundo houve tal confluência de evidências significativas da preparação do fim" (John F. Walvoord; Israel in Prophecy). Isto posto, Thomas Ice Conclui: "alguns desdobramentos históricos que serve como preparação do cenário já estão lançando sua sombra sobre nossos dias. Incluem a apostasia religiosa, os preparativos para o Império Romano revivido na Europa, o Retorno de Israel à sua terra, o renascimento de antigos Inimigos de Israel como Iraque (a Babilônia) e o surgimento da Rússia como poder militar (a invasão de Gogue e Magogue)  todos eles como preparativos para eventos da Tribulação. Antes, porém, que a cortina seja erguida, a igreja subirá aos ares no arrebatamento"[12].










Notas
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[1] Ice, Thomas; Danny, Timothy (Org); Quando a Trombeta Soar. pág, 214.
[2] Ibid.
[3] Ibid.
[4] Ibid.
[5] Pentecost, J. Dwight; Manual de Escatologia. pág, 234.
[6] Ice, Thomas; Danny, Timothy (Org); Quando a Trombeta Soar. pág, 18.
[7] Ibid., pág, 19.
[8] Entre os defensores do pré-tribulacionismo existem divergências quanto a relação do arrebatamento da igreja e a segunda vinda de Cristo. Alguns entendem o arrebatamento da Igreja como uma "primeira fase" do retorno de Cristo; outros, entendem como dois eventos completamente distintos. Particularmente, compreendo o arrebatamento como um evento totalmente distinto da segunda vinda de Cristo, assim  sendo, faço coro com o segundo grupo. Em sua obra, Pentecost faz referência à 17 distinções entre o arrebatamento e a segunda vinda de Cristo.  Ele conclui escrevendo: "Essas e outras contraposições que poderiam ser apresentadas apoiam a alegação de que se trata de dois planos diferentes que não podem ser unificados num só." (Pentecost, J. Dwight; Manual de Escatologia. pág, 268).
[9] Rhodes, Ron; A Cronologia do Fim dos Tempos. pág, 64.
[10] Pentecost, J. Dwight; Manual de Escatologia. pág, 261-262.
[11] Ice, Thomas; Danny, Timothy (Org); Quando a Trombeta Soar. pág, 239.
[12] Ibid., 25.





Dedicatória:
Ao meu amigo e irmão, Luiz Antônio. 

sábado, 24 de abril de 2021

Fé e Obras na Teologia de Tiago


O Dilema

O Principal problema que pode surgir aos nos depararmos com a Epístola de Tiago, é pensarmos que o mesmo está de alguma forma contradizendo o Apóstolo Paulo ou até mesmo o corrigindo concernente a sua compreensão quanto a justificação, já que o Ele - Paulo -  repetidamente afirmava que esta se dava por meio da fé e não por obras. Não obstante, Aqueles que afirmam que na compreensão de Tiago a fé é algo secundário, de menor importância, ou até mesmo subserviente as obras, não percebem que para Tiago, a vida Cristã pode ser resumida em termos de fé (Tg 1.3; 2.1,5), não apenas isso, a fé é algo sine qua non para nossa relação contínua com Deus e se manifesta em oração (Tg 1.6; 5.15). Fica evidente que para o autor, "a vida Cristã começa com um novo nascimento, tornando-se então uma vida contínua de fé".  

Em Defesa de uma Fé Verdadeira

Tiago procura ressaltar ao leitor de que existe uma impossibilidade da existência de uma fé verdadeira sem obras, assim como palavras sem ações. Tiago faz uso de dois exemplo para ilustrar o seu entendimento sobre uma genuína fé; "Tiago Constrói um argumento em favor das obras que não é baseado simplesmente na lógica, mas apoiado na invocação dos exemplos Bíblicos de Abraão e Raabe (Ibid.). Ela - a fé - foi expressada em Abraão que estava disposto a oferecer seu filho a Deus (Tg 2.21) e em Raabe que protegeu os espiões e os livrou de serem presos e consequentemente mortos (Tg 2.25)[1]. Tiago ao longo de sua epístola é insistente quanto a necessidade da fé ser expressa em obras (Tg 2.1-4), consequentemente, com a mesma ênfase, Tiago enfatiza a inutilidade de uma fé sem obras (Tg 2.14-26). Portanto, deve ficar evidente ao leitor que o autor defende a ideia de que a fé verdadeira resulta em obras que a expressa. Entretanto, três temas se relacionam com o argumento de Tiago. Sendo eles:

  • Em primeiro lugar, a obediência deve acompanhar, necessariamente, o ouvir a palavra (Tiago 1.22)
  • Em segundo lugar, Palavras de nada servem sem ações em um contexto na qual se faz de suma importância expressar ambas (Tg 2.15-16)
  • Por fim, a fé desacompanhada de obras é morta (Tg 2.14-17)


Uma Resposta Merecida

Tiago ele está se dirigindo não a Paulo, mas a seus "seguidores" e a todo aquele que possuísse uma visão incorreta quanto a fé. Marshall realça justamente isso ao escrever "Tiago está atacando uma falsa visão da fé, que a entende como pouco mais que uma crença ortodoxa que não muda o estilo de vida de uma pessoa"[2]. Se levarmos em consideração o fato de que ser cristão é ser um crente, Tiago corrige a ideia errônea de que a crença é apenas e exclusivamente "uma mera questão intelectual e que não diz respeito ao comportamento"[3]. Se por um lado o Apóstolo Paulo contestava o ensinamento de que a lei judaica, principalmente a circuncisão e todos os seus aspectos ritualísticos era imprescindível para a Justificação, do mesmo modo, Tiago confrontava aqueles que acreditavam que possuindo um fé em Deus, não havia necessidade de ser expressar o amor, curiosamente, a necessidade de tal demonstração é o mesmo entendimento de Paulo: "Pois, quando estamos unidos com Cristo Jesus, não faz diferença nenhuma estar ou não estar circuncidado. O que importa é a fé que age por meio do amor" (Gálatas 5:6 [NTLH]). Algo que se faz necessário pontuar, é que Tiago em nenhum momento prioriza as obras em detrimento a fé, algo que Paulo combateu em Romanos e em Gálatas. As "obras" em Tiago significa algo totalmente diferente, "Tiago está falando do tipo de boas obras que indica a mudança de caráter que deve acompanhar a conversão cristã"[4]. Ao passo que "obras" em Paulo se refere/significa "obras da lei", pois o que ele combatia era o entendimento de que se fazia necessário as "obras" da lei, em vez da fé ou em complemento a ela, para a justificação".

Conclusão

Não precisamos ver Tiago e Paulo como "inimigos Teológicos", como os veem a maioria dos teólogos alemães, pois, conforme defende Marshall, "é bastante provável que alguns dos ouvintes de Paulo tenham tornado isoladamente  sua insistência na fé como uma desculpa para a falta de esforço em fazer boas ações"[5]. Para Tiago, esta compreensão seria uma "tipo defeituoso de fé" na qual ele de hipótese alguma poderia concordar. Portanto, Tiago e Paulo estão mais lado a lado do que se possa imaginar, defendendo o evangelho de falsos ensinamentos, deturpações e compreensões incorretas.







Notas
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[1] "embora a ilustração de Tiago 2:15-16 trate da diferença entre palavras e obras de amor como um paralelo à diferença entre fé sem obras e fé com obras, ela é sem dúvida uma ilustração altamente apropriada, uma vez que Tiago via as obras de amor como opostas às exigências rituais e como uma das expressões necessárias da verdadeira fé" (Marshall, I Howard; Teologia do Novo Testamento; Ed. Vida Nova; P. 548".
[2] Ibid.
[3] Ibid., p. 591.
[4] Ibid., p. 593.
[5] Ibid.